
Revista BRAVO! | Agosto/2008
Por André Nigri
Dados o histórico e o estilo dos diretores dos três títulos, é legítimo esperar por filmes bastante diferentes. Uma coisa, no entanto, eles têm em comum: o parentesco com o documentário. Em entrevistas sobre Linha de Passe, Walter Salles disse que se baseou em dois filmes do gênero dirigidos por seu irmão, João Moreira Salles: Futebol (1998), em parceria com Arthur Fontes, e Santa Cruz (2000), em parceria com Marcos Sá Corrêa. "Esses dois documentários enraizaram o filme. Eles nos permitiram entender o quanto os mundos do futebol e da religião são complexos no Brasil", disse Walter a BRAVO!. No debate de lançamento da revista na Livraria da Travessa, no mês passado, no Rio de Janeiro, Breno Silveira contou como ignorou a sugestão para filmar Era uma Vez... em estúdio, para mostrar a realidade da favela carioca do morro do Cantagalo, em Ipanema, onde se passa a trama. Disse também que durante as filmagens se baseou, em larga medida, nos ensinamentos de um de seus mestres, o documentarista Eduardo Coutinho, com quem trabalhou (como câmera) em Santa Marta Duas Semanas no Morro, filme de 1987. Bruno Barreto criou o roteiro de seu Última Parada, 174 a partir do documentário brasileiro mais laureado em todos os tempos, Ônibus 174, de José Padilha que arrebatou nada menos do que 23 prêmios, entre eles um Emmy, o Oscar da televisão americana. "O documentário do Padilha me instigou a fazer o filme. Ele me deixou curiosíssimo", diz Bruno Barreto.
A imbricação do atual cinema brasileiro de ficção com o documentário é tão profunda que se pode falar em tendência, da qual os três filmes que estréiam neste meio de ano são apenas a manifestação mais recente. "Há várias coisas do cinema de ficção brasileiro atual que remetem ao documentário", diz o cineasta João Moreira Salles. "A utilização da paisagem real, a recusa do estúdio, a aceitação da luz brasileira. E também o trabalho de cineastas com atores não profissionais, muitas vezes pertencentes às regiões retratadas nos filmes." Esse fenômeno observado por João pode ser rastreado nas duas produções mais bem-sucedidas do cinema brasileiro recente. Cidade de Deus (1998), de Fernando Meirelles, tira sua força justamente do trabalho com atores iniciantes, que viviam em comunidades parecidas com a retratada no filme e levaram, assim, suas experiências de vida para a tela. Tropa de Elite (2007) tem como protagonista o Capitão Nascimento, personagem de ficção claramente decalcado no Capitão Pimentel, que aparece no documentário Notícias de uma Guerra Particular (2000), de João Moreira Salles e Katia Lund. "Alguns dos nossos cineastas de ficção decidiram retratar a realidade em seus filmes por causa dos documentários. Foram, de certa maneira, pautados por eles", diz José Padilha, diretor de Tropa de Elite. Ele tem razão. Mas a união entre ficção e documentário vai muito além da utilização dos mesmos temas. A influência também se dá na maneira de filmar, na linguagem cinematográfica e no modo de tratar os temas, como se verá a seguir.
Assista a trechos dos filmes e veja a relação entre os gêneros
A MANEIRA DE FILMAR
Quando fez Notícias de uma Guerra Particular, em 2000, João Moreira Salles esteve no centro de uma polêmica com o então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Para fazer o filme, João teceu uma rede de relacionamentos no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, e pagou R$ 5 mil ao traficante Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, em troca da publicação de um livro de memórias do bandido. Garotinho e o então secretário de Segurança, Josias Quintal, criticaram a atitude (na época, o coordenador de Segurança Luiz Eduardo Soares, que depois se tornaria uma figura proeminente no combate ao crime no Brasil, defendeu João). A polêmica se esgotou pouco depois diante de dois fatos: João não cometeu crime algum, e em nenhum momento seu filme faz apologia da violência ou da figura do bandido.
Para fazer um filme de ficção que ele próprio define como uma "fábula", Breno Silveira adotou procedimento semelhante ao usado por João em seu documentário. Antes de começar a rodar sua história, subiu quatro vezes o morro do Cantagalo para negociar com as lideranças locais. "Sem autorização do tráfico você não filma. Eles queriam que nós fizéssemos algo pela comunidade. Decidimos, então, construir um posto médico no Cantagalo, o que fizemos ao custo de R$ 60 mil", diz Breno. Ele também empregou moradores da comunidade na confecção do figurino e alguns cenários, como o barracão onde o protagonista Dé, interpretado por Thiago Martins, vive com a mãe. Filmar num morro conflagrado pela guerra entre traficantes exige alguns cuidados. Num filme, a equipe de câmeras, contra-regras e demais profissionais que trabalham num set costuma usar camisetas pretas, para não vazar a imagem na cena. Em Era uma Vez..., todos usaram camisetas brancas com um letreiro do filme. O objetivo era que os integrantes da equipe técnica não se confundissem com os soldados do tráfico, tampouco com a polícia ambos usam roupa preta. De acordo com Bruno, em apenas um momento foi necessário parar uma cena. "Estourou um tiroteio entre traficantes, e tivemos que interromper justamente a seqüência do casamento entre os protagonistas", diz ele.
José Padilha também teve dificuldades e obstáculos durante as filmagens de Tropa de Elite no morro Chapéu Mangueira. Em novembro de 2006, traficantes seqüestraram parte da equipe que trabalhava no filme e roubaram as armas cenográficas: 59 delas eram réplicas e 31, verdadeiras, adaptadas para tiros de festim. As filmagens foram paralisadas por cerca de duas semanas. Depois disso, eles voltaram a filmar no morro. Percalços típicos de documentarista.
A LINGUAGEM
Walter Salles considera Linha de Passe seu filme mais influenciado pelo documentário. Não apenas por basear a história em dois filmes do gênero, mas também pela atitude durante a filmagem. Em Linha de Passe, o diretor trabalha principalmente com não-atores. Os jogadores de futebol que aparecem no filme são realmente jogadores, assim como os evangélicos e os motoboys. "Até as pessoas que aparecem numa festa de aniversário na casa da família são os vizinhos da casa onde filmamos. Ou seja, queríamos que a realidade transformasse o filme no dia-a-dia", diz Walter.
O trabalho constante com não-atores marca do cinema ficcional brasileiro desde pelo menos Cidade de Deus faz com que surja uma nova linguagem no cinema nacional. Numa filmagem tradicional, é responsabilidade do diretor criar as chamadas "marcações" ou seja, ele define qual será o movimento do ator no cenário, de forma a captar a imagem dele de acordo com o enquadramento previsto. Quando se trabalha com atores sem experiência, criar marcações muito rígidas pode tirar a espontaneidade. "Em Cidade de Deus, resolvemos deixar o elenco solto em cena, sem marcas nem texto muito fechado. Acredito que o filme tenha mesmo um pé no documentário", diz Fernando Meirelles. Com isso, o diretor brasileiro criou um jeito de filmar que causa certa estranheza a atores acostumados com os padrões hollywoodianos. Nas entrevistas de divulgação de O Jardineiro Fiel, o inglês Ralph Fiennes observou o fato de que Meirelles não marcava as cenas, dando ao ator maior liberdade de movimentos. Procedimentos assim ajudam a aumentar a sensação de realismo na tela e fizeram escola no cinema brasileiro. "Em Tropa de Elite adotamos o mesmo procedimento. Os atores não foram rigidamente marcados em cena e tiveram liberdade para improvisar, o que gerou uma certa imprevisibilidade no set", diz José Padilha.
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Outro elemento de linguagem que o cinema de ficção brasileiro incorporou do documentário é a chamada "câmera solta". Tudo começou, mais uma vez, em Cidade de Deus, quando o diretor de fotografia César Charlonne fazia questão de documentar o tempo todo o que estava acontecendo no set. Em O Jardineiro Fiel, vários takes das cenas de multidão foram feitos assim. Tropa de Elite, de acordo com José Padilha, é inteiramente filmado com a câmera na mão. Não usa aparatos tecnológicos comuns a filmes de ficção como as gruas espécies de guindastes que erguem as câmeras com o objetivo de proporcionar tomadas panorâmicas e ângulos inusitados. A câmara na mão é também uma constante em Era uma Vez..., de Breno Silveira. Por fim, uma derradeira contribuição do documentário à linguagem está nas próprias falas dos atores. Até Cidade de Deus, era comum, no cinema brasileiro, que bandidos de pouca instrução falassem como bacharéis, como se estivessem lendo algum texto. A partir do longa de Meirelles, começou a se ouvir nas telas o que se ouve nos morros e nas ruas.
TEMAS E VISÃO DE MUNDO
Uma característica dos filmes brasileiros desde o Cinema Novo é que eles sempre tentam, de certa forma, lançar idéias sobre o país. Essas idéias, no entanto, costumavam ser expressas por meio de metáforas que levavam a interpretações sociológicas. O caso clássico é Terra em Transe, de Glauber Rocha, que ambiciona traçar um painel do país e das razões que o levaram ao atraso lá estão o político corrupto, o padre de passeata, o intelectual que perde o contato com a realidade e se isola no mundo das idéias. Nesse contexto, o documentário brasileiro veio para dar uma espécie de "choque de realidade". O marco inicial é o esplêndido Cabra Marcado para Morrer" (1982), de Eduardo Coutinho, que ganhou 21 prêmios, entre eles o Festival de Berlim. Entre os méritos do filme está fornecer uma visão não maniqueísta da questão agrária brasileira. Coube a João Moreira Salles, discípulo assumido de Coutinho, fazer o documentário mais bem-sucedido sobre o tema mais abordado pelo cinema brasileiro atual, a violência. Notícias de uma Guerra Particular joga uma pá de cal nas idéias simplistas sobre a violência, como o fato de que ela teria apenas causas sociais. A violência, no filme, é algo complexo, anárquico, de múltiplas causas e difícil solução. Tanto que o filme não aponta nenhum caminho na época, chegou a ser criticado por isso.
Essa visão mais complexa da realidade brasileira contaminou também de maneira saudável o cinema de ficção. Críticos saudosistas do tempo em que os filmes defendiam idéias se chocam com realidades cruas sobrepostas de maneira anárquica. Quando Cidade de Deus foi lançado, o diretor Fernando Meirelles foi criticado por não explicar a origem e as causas da violência. "Se eu quisesse dar uma visão sociológica ou explicar as razões externas do que ocorria, não faria um filme como aquele", diz. Tropa de Elite é outro caso. A ânsia por uma obra que "interpretasse" o país fez com que muitos enxergassem o protagonista, o Capitão Nascimento, como esse "intérprete". Esses críticos qualificaram o filme de "fascista". Em Tropa de Elite, no entanto, o Capitão Nascimento é apenas um personagem. Complexo e contraditório como os bons personagens, com sua mescla de honestidade e truculência, ele se mistura a policiais corruptos, professores universitários sem contato com a realidade e bandidos cruéis para compor um retrato duro da violência brasileira. Como Notícias de uma Guerra Particular, Tropa de Elite não aponta nenhuma solução, mas faz pensar um bocado. (Curiosamente, os camelôs que vendiam a cópia pirata do filme no ano passado também vendiam Notícias de uma Guerra Particular com o título Tropa de Elite 2.)
No mês passado, o escritor brasileiro João Paulo Cuenca escreveu um artigo para o suplemento literário Babelia, do jornal espanhol El País. No texto, ele falava das cobranças que os autores brasileiros sofrem no exterior. Esperam-se deles romances que retratem a violência, palavra que, infelizmente, é muito associada ao Brasil lá fora. Na crônica, Cuenca lista escritores que não se sentem obrigados a incorporar esse tema a seu universo literário. Ele cita nomes como Bernardo Carvalho, Joca Reiners Terron e Daniel Galera, além dele próprio. O artigo de Cuenca provoca uma comparação entre a literatura e o cinema. Durante décadas, a literatura brasileira de ficção se preocupou em retratar o país e criar uma linguagem que fosse nacional. De Macunaíma às obras de Jorge Amado, foram escritas dezenas de romances com essa preocupação que invariavelmente pautavam o debate cultural. Hoje, sem nenhum demérito para os escritores a geração entre 30 e 50 anos tem autores de excelente domínio técnico da narrativa, como os citados acima , os romances não se preocupam mais em retratar o Brasil e já não pautam o debate cultural. Essa função cabe ao cinema. Mais do que nunca. Como lembrou Fernando Meirelles em entrevista à BRAVO! de janeiro, que desencadeou uma polêmica posterior, filmes como Tropa de Elite mobilizam muito mais gente do que toda a obra de Glauber Rocha somada. O cinema brasileiro pode ainda não ter se viabilizado como indústria, objetivo que persegue desde a implantação da Lei do Audiovisual, mas tem um mérito incontestável: se tornou a linguagem artística que mais provoca debate no país. E deve isso, em parte, ao fato de a ficção, escudada no documentário, levantar os temas que o Brasil quer discutir.
OS FILMES
Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Estréia prevista para setembro.
Era uma Vez..., de Breno Silveira. Em cartaz nos cinemas.
Última Parada, 174. Estréia prevista para setembro.
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